sexta-feira, 11 de novembro de 2011

MI MARIJUANA QUERIDA




                 Ando acompanhando o caso alunos da Usp x PM, em que alguns alunos pertencentes a algumas das siderais siglas de esquerda que habitam o movimento estudantil, invadiram o prédio da reitoria para protestar contra a repressão baixada sobre dois estudantes que faziam uso ( a expressão é o máximo) da cannabis sativa, vulgo maconha, e, por "supuesto", em espanhol, a   popular marijuana.
        Os indigitados (hoje estou com ataque de advogadês) cometiam o ilícito no prédio da História e Geografia, que lá atrás batizamos com o nome de prédio dos grandes espaços vazios. 
               Isso já faz algum tempo - 43 anos - com alguma exatidão. 
              Era 1968,  com outros 1.300 estudantes, morava no CRUSP - o Conjunto Residencial da USP - que até hoje está lá em Pinheiros, em São Paulo.
               1968 foi um ano mágico e trágico. Houve a Primavera de Praga, que durou sete meses e foi esmagada pelos tanques sovieticos do Pacto de Varsóvia. Houve a revolta de maio de 68 na França que serviu de modelo para vários movimentos estudantis mundo a fora.
                No Brasil os estudantes, os intelectuais e artistas de vários segmentos se colocaram em franca oposição ao regime militar instalado no País em 1964. 
                       A 3 de outubro de 1968 aconteceu, na Rua Maria Antonia, em SP, a assim chamada "guerra" entre a Faculdade de Filosofia, Ciencias e Letras e a Universidade Mackenzie. Nesse dia eu estava lá. Estudava Ciências Sociais, exatamente na FFCL da USP, no prédio da Maria Antonia. Durante o almoço, no restaurante do crusp, chegou a notícia de confusão entre a Filosofia e o Mackenzie, entre a vanguarda - Filosofia - e o retrocesso - Mackenzie, entre os avançados e os retrógrados, entre os esquerdistas e os reacionários que integravam o triste CCC - Comando de Caça aos Comunistas, uma organização que se pretendia paramilitar, afeita a  tiros contra os desafetos, e vista com simpatia pelo poder policial em vigor. 
                   De Penápolis, estávamos eu e o Walter Pini, estudantes da mesma classe e turma das Ciências Sociais. Se havia alguém mais confesso que o tempo passado apagou da minha memória. 
                        O prédio da Faculdade ficou literalmente destruído, foi fechado, e os cursos da FFCL da Usp, instalados na base do improviso na cidade universitária.
                          Havia no crusp a efervescência de idéias de partidos à esquerda - todos clandestinos - claro - expressando a babel ideológica de combate à ditadura. Siglas abundavam. Desde o velho Partido Comunista dito de carteirinha, passando pelo PC do B, Ação Popular, ligada à Igreja Católica, a Política Operária, e muito mais, formando um grande caldeirão nada ecumênico, transformando as assembleias do crusp, ou no crusp, melhor dizendo, em infindáveis provas de resistência, tantos eram os oradores inscritos para falar, cada um ou uma representando uma das siglas. 
                               Foi lá que conheci o Zé Dirceu já ostentando um ego maior que os charutos do compositor Villa-Lobos. Fazia o gênero hoje conhecido por artista global e plugado no mundo. Tinha os cabelos longos, e seu apelido no crusp era "Ronius Vonius", dada a estampa à la Ronnie Von - um cantor muito famoso entre as garotas - a modelar suas madeixas. 
                               No meio a tudo,ou junto de, lá estava ELA. ELA MESMO. A "erva maldita". A contra-revolução elaborada pelos capitalistas para por a perder a juventude. Muito dissimulada, sua presença começou a ser "cheirada". Apesar do risco, fazia seus usuários.
                  Só não se alastrou de vez na Usp porque, a 13 de dezembro de 1968, o governo militar decretou o AI - 5, Ato Institucional N. 5,  o instrumento (i) legal no qual a Ditadura Militar escancarou a sua face, lançando  fora a máscara, sendo  sua primeira demonstração da força do arbítrio, em São Paulo,  como lição para os novos tempos,a invasão, pelos tanques militares, da Cidade Universitária "Armando Salles de Oliveira", símbolo da liberdade de pensamento e das franquias democráticas. 
                                  Os alunos do crusp foram todos em cana;  feito o pente-fino para identificar os "subversivos" - os "fichas sujas" e os enviar para o famigerado DOPS, a polícia política criada por Getulio Vargas, especialista em torturas e "desaparecimentos, os "fichas limpas" - o "negativo" dos atuais,  liberados dias após. 
                                    Graças ao João Dejato, então motorista da FUNEPE, escapei da cana. De onze para doze de dezembro, o João Dejato dormiu no crusp, indo na manhã seguinte buscar material didático na Reitoria; depois, iria pegar o Prof. Chain, em Perdizes. Como o ano escolar estava praticamente findo, aproveitei a carona do João Dejato, chegando ao portão da minha casa, que ficava onde hoje é o prédio da Receita Federal, às cinco da tarde do dia 12 de dezembro de 1968.
                                     A maconha se disseminou, com ou sem repressão. E,se há um caso onde a repressão baixou,  não o foi sobre os os destruidores do regime democrático, porém contra o excesso de democracia  com que alguns alunos,proficientemente, obraram durante aquele  "tapa na onça", desfrutando sossegadas puxadas, ao som do tango-milonga Mi Marijuana Querida. "Un coup de dés jamais n'abolira le hazard". Evoé Baco. Deixem os meninos em paz. Inté.
                              

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