JACY DE CAMARGO SAYEG,além de mãe da Beatriz e do Newton, foi a primeira e eterna professora; fui por ela alfabetizado e iniciado nas contas elementares, rudimentos do que viria a ser história, geografia e civismo.
Ingressei no primeiro ano, do "1º Grupo Escolar de Penápolis", que fica até hoje na Av. Luiz Osório, na quadra adiante do vetusto Bar Tabu, em 1.952. Sete anos nas costas. E todo lampeiro lá fui mui supimpa para o primeiro dia de aula.
Naquele dia, depois da apresentação da "nossa" professora, a D. Jacy disse em voz mansa e pausada, que chamaria um por um dos alunos e, cada um, deveria, ao ouvir seu nome, dizer: presente. O júbilo(não há outra palavra melhor para expressar o meu estado de espírito naquele instante) que me invadiu o ser foi derramado. "Puxa", imaginei, logo de cara, antes de qualquer ensinamento, ao ouvir o meu nome eu diria presente, e já ganharia um brinde. Adorei a escola de todo meu contentamento. Durou nada a ilusão. Quando o último aluno respondeu o seu "presente", D. Jacy explicou que todos os dias o ritual se repetiria e que isso tinha o nome de chamada, que era para a gente ficar sabendo quem faltara à aula, e, assim, o presente declinado para a professora era, prosaicamente, eu estar lá na sala, mais nada. Me senti como se a bola de sorvete tivesse ido inteira ao chão. Mesmo pasmo, tratei de me conformar com a inevitável e inexorável constatação de que a palavra presente não passava de uma traidora, cruel, dissimulada, e olha, por que não, pérfida? Presente que se fizesse por merecer o nome só poderia ter a forma de um brinquedo, que lá vá uma guloseima qualquer, e não um chocho som que só servia para denunciar nossas presenças ante a professora.
Aquietei-me no meu canto, sem coragem para perscrutar junto a fonte máxima do saber, ali na minha frente, o porquê tão desavisado de uma coisa que toda a vida tinha sido o signo da alegria, transmutar-se numa outra oca, vazia, imprestável e vingativa.
E esse foi o meu primeiro encontro entre o substantivo e e o verbo, e a descoberta inefável de que no princípio era o verbo estar presente; e o outro a quem tanto prezava só se materializou quando, ao terminarmos a cartilha, que não me recordo qual, mas não era a Caminho Suave, D. Jacy nos presenteou com uma festa, em sua casa, com tudo o que me conduziu às pazes com o MEU presente. Também, bolo, refrigerantes, doces, quitutes,como era o falar de então, e de esbaldar-se à tripa-forra, obtendo,definitivamente, a prova de eu estar certíssimo sobre presente ser presente, e sem esperar pelo natal que confirmaria minha tese.
E como presente final, cada um dos alunos ganhou de presente um livro. Muito mais do que uma cartilha. Saí da festa pleno do corpo e do espírito. Não imaginava que, a partir daquele dia, nunca mais deixaria de ter o presente que deu meu norte vida-a-fora: a leitura.
Então vocês já sabem porque a primeira professora sempre será a "Rosa Pristina".
D. Jacy mais do que professora foi um amor de pessoa, e, tenham a certeza de as crianças que alfabetizou tiveram o fruto de seu magistério no caráter e no carinho.Inté!
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