quarta-feira, 23 de novembro de 2011

A SINFONIA DOS SALMOS DE STRAVINSKY, OU COÇAR E DIVAGAR É SÓ COMEÇAR - PARTE I




                  Postei um vídeo que baixei do you tube, com o terceiro movimento da "Sinfonia dos Salmos" de Igor Stravinsky, um compositor do século vinte.
              Os grandes compositores do século vinte nasceram, muitos deles, na segunda metade do século dezenove, continuando suas obras no século seguinte. Assim foi com Stravinsky que, de seus 88 anos, 71 os viveu no século 20.
                 Pode ser uma idiotia, em tempos de sertanejos universitários, secundaristas, rock metálico, reggae, e outros gêneros musicais, falar sobre um velhote do século passado.
Que foi o último compositor a criar "formas orgânicas de música" na expressão cunhada por Paulo Francis, que muito dela sabia.
                       Paulo Giovanini, grande pianista e insuperável professor, sempre ensinou que a música se divide em apenas duas e bem delimitadas definições: a que  presta e a que não presta. O resto é perfumaria. 
                           Clássica, erudita, popular, mpb, sertaneja, bossa nova, tango, samba, raiz, sertanejo universitário e o infinito de outras denominações tentam identificar os nichos onde se guardam as manifestações musicais e artísticas de uma comunidade privilegiada: a dos compositores.
                                 Como em toda obra que se pretende arte, na música encontraremos talentos ao infinito; porém gênios, em escala quantitativa inversa à dos talentos.
                                    Igor Stravinsky foi o mais polêmico compositor do século vinte. Outros o foram, a exemplo de Debussy, Ravel, Schoenberg, Mahler, Villa-Lobos, Respighi, secundados por uma infinidade de outros músicos. 
                                              Com Stravinsky, a produção  musical toma formas inusitadas, nas melodias, nas harmonias, e, enfaticamente, nos ritmos.
                                   Sua criação musical obedece três variáveis  bem distintas: o período russo, de 1.882 a 1920, o francês ou neoclássico, de 1920 a 1939 e o norte-americano, de 1939 a 1971.
                                     A Sinfonia dos Salmos data de 1930 sendo obra de encomenda pelo maestro Sergei Koussevitsky para a celebração do cinquentenário da Orquestra Sinfônica de Boston.
                                               Sua dedicatória trata-se de respeitosa e humilde oferenda ao Criador: "Cette symphonie composée à la glorie de DIEU est dediée au Boston Symphony Orchestra à l´óccasion du cinquantenaire de son existence".
                                   A música de Stravinsky, numa comparação  bastante precária, assemelha-se à primeira leitura do "Grande Sertão: Veredas" do nosso grande João Guimarães Rosa. Ambas contém a novidade da criação "pura", da informação colhida em universos não ainda tocados pelo gênio da criação humana, por isso mesmo, cheias de espantos, choques, rupturas, contradições aparentes,  ambiguidades  e dilaceramentos demandando mais de uma leitura ou oitiva, para o marinheiro de primeira viagem.


                                   "Minha" Sinfonia dos Salmos.


                                   A primeira vez que ouvi falar da Sinfonia dos Salmos foi em casa de D. Maurícia de Almeida Aguiar, mãe da D. Mauricinha Aguiar, depois Soliani, à sua vez mãe do Eninho, Suzana, José Maurício, Patrícia, Amadeu e Fernando Soliani, igualmente filhos do Dr. Enio Soliani.
                                       Minha irmã Maria Ivete -sim, ela mesma, a professora de matemática do Instituto e da Funepe - e eu estudávamos piano com D. Maurícia avó, e a Rádio Ministério da Educação e Cultura tinha uma programação de cunho mais "cultural", transmitindo ao vivo algumas apresentações da Orquestra Sinfônica Nacional, do Rio de Janeiro.
                                      Isso foi no início dos anos sessenta, mas o que recordo é que haveria um tipo festival de música moderna e dentre elas haveria a apresentação da Sinfonia dos Salmos.
                                       No seu dia, lá estávamos D. Maurícia, Maria Ivete e eu, à frente de um rádio de válvulas (o transistor só apareceu depois, muito depois), tentando acertar o dial na Rádio MEC. A transmissão era em ondas curtas, cheia de chiados e ruídos; o som vinha, ia embora, sumia, e depois voltava. Mas foi o suficiente para que tivessemos nós três a certeza da existência de um mundo novo. Inóspito. Selvagem.  Intrigante.Desafiador.Desconcertante em seus rítmos arrevezados,em suas dissonancias bárbaras. Enfim, a espantosa descoberta de um novo som único, a ser explorado, abrindo que fosse uma picada pelo intrincadado de suas estruturas, mas que, em seu final continha o aceno claro de uma mensagem transcedental, emotiva, glorificante.
                                     Devo acrescer que essa capilaridade do sentir a  Sinfonia dos Salmos, como acima descrita, vim a tê-la somente muitos anos depois, quando encontrei na Banca do Cury (hoje a Tico e Teco), numa coleção de música clássica em fascículos, uma gravação soberba da Sinfônica de Moscou, sob a regência de Igor Markevitch, um dos grandes regentes dos anos 50/60.
                                        Aí comecei a dar conta de o sertão ser em toda a parte, como insistia Riobaldo ao longo do Grande Sertão: Veredas, com toda a modernidade de sua estrutura, a Sinfonia dos Salmos imanava essências imbricadas no estilo de composição do período clássico. Simplificando: musica sacra moderna e clássica a um só tempo. 
                                          E sublime quando se toma o conhecimento dos três salmos que a inspiraram.
                                             O terceiro movimento, , surge com a simplicidade grandiosa que somente o gênio é capaz de dominar. É musica "orgânica" que penetra nosso espírito, enleva nossa alma, testemunha a perenidade da arte para todo o sempre.
                                     Em próximo passo, direi sobre os salmos escolhidos pelo autor para compor a sinfonia.
                                      Quem insistir, digo e repito, conseguirá percorrer até o fundo, as veredas e os sortilégios desse mundo único e mágico da música.
                                           Findo - ufa - com um aforismo clássico do nosso modernista Oswald de Andrade: "Um dia a massa há de comer o biscoito fino que eu fabrico". Assim será com toda a obra de arte, de que o mundo anda muito precisado. Inté.






                                    

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

MI MARIJUANA QUERIDA




                 Ando acompanhando o caso alunos da Usp x PM, em que alguns alunos pertencentes a algumas das siderais siglas de esquerda que habitam o movimento estudantil, invadiram o prédio da reitoria para protestar contra a repressão baixada sobre dois estudantes que faziam uso ( a expressão é o máximo) da cannabis sativa, vulgo maconha, e, por "supuesto", em espanhol, a   popular marijuana.
        Os indigitados (hoje estou com ataque de advogadês) cometiam o ilícito no prédio da História e Geografia, que lá atrás batizamos com o nome de prédio dos grandes espaços vazios. 
               Isso já faz algum tempo - 43 anos - com alguma exatidão. 
              Era 1968,  com outros 1.300 estudantes, morava no CRUSP - o Conjunto Residencial da USP - que até hoje está lá em Pinheiros, em São Paulo.
               1968 foi um ano mágico e trágico. Houve a Primavera de Praga, que durou sete meses e foi esmagada pelos tanques sovieticos do Pacto de Varsóvia. Houve a revolta de maio de 68 na França que serviu de modelo para vários movimentos estudantis mundo a fora.
                No Brasil os estudantes, os intelectuais e artistas de vários segmentos se colocaram em franca oposição ao regime militar instalado no País em 1964. 
                       A 3 de outubro de 1968 aconteceu, na Rua Maria Antonia, em SP, a assim chamada "guerra" entre a Faculdade de Filosofia, Ciencias e Letras e a Universidade Mackenzie. Nesse dia eu estava lá. Estudava Ciências Sociais, exatamente na FFCL da USP, no prédio da Maria Antonia. Durante o almoço, no restaurante do crusp, chegou a notícia de confusão entre a Filosofia e o Mackenzie, entre a vanguarda - Filosofia - e o retrocesso - Mackenzie, entre os avançados e os retrógrados, entre os esquerdistas e os reacionários que integravam o triste CCC - Comando de Caça aos Comunistas, uma organização que se pretendia paramilitar, afeita a  tiros contra os desafetos, e vista com simpatia pelo poder policial em vigor. 
                   De Penápolis, estávamos eu e o Walter Pini, estudantes da mesma classe e turma das Ciências Sociais. Se havia alguém mais confesso que o tempo passado apagou da minha memória. 
                        O prédio da Faculdade ficou literalmente destruído, foi fechado, e os cursos da FFCL da Usp, instalados na base do improviso na cidade universitária.
                          Havia no crusp a efervescência de idéias de partidos à esquerda - todos clandestinos - claro - expressando a babel ideológica de combate à ditadura. Siglas abundavam. Desde o velho Partido Comunista dito de carteirinha, passando pelo PC do B, Ação Popular, ligada à Igreja Católica, a Política Operária, e muito mais, formando um grande caldeirão nada ecumênico, transformando as assembleias do crusp, ou no crusp, melhor dizendo, em infindáveis provas de resistência, tantos eram os oradores inscritos para falar, cada um ou uma representando uma das siglas. 
                               Foi lá que conheci o Zé Dirceu já ostentando um ego maior que os charutos do compositor Villa-Lobos. Fazia o gênero hoje conhecido por artista global e plugado no mundo. Tinha os cabelos longos, e seu apelido no crusp era "Ronius Vonius", dada a estampa à la Ronnie Von - um cantor muito famoso entre as garotas - a modelar suas madeixas. 
                               No meio a tudo,ou junto de, lá estava ELA. ELA MESMO. A "erva maldita". A contra-revolução elaborada pelos capitalistas para por a perder a juventude. Muito dissimulada, sua presença começou a ser "cheirada". Apesar do risco, fazia seus usuários.
                  Só não se alastrou de vez na Usp porque, a 13 de dezembro de 1968, o governo militar decretou o AI - 5, Ato Institucional N. 5,  o instrumento (i) legal no qual a Ditadura Militar escancarou a sua face, lançando  fora a máscara, sendo  sua primeira demonstração da força do arbítrio, em São Paulo,  como lição para os novos tempos,a invasão, pelos tanques militares, da Cidade Universitária "Armando Salles de Oliveira", símbolo da liberdade de pensamento e das franquias democráticas. 
                                  Os alunos do crusp foram todos em cana;  feito o pente-fino para identificar os "subversivos" - os "fichas sujas" e os enviar para o famigerado DOPS, a polícia política criada por Getulio Vargas, especialista em torturas e "desaparecimentos, os "fichas limpas" - o "negativo" dos atuais,  liberados dias após. 
                                    Graças ao João Dejato, então motorista da FUNEPE, escapei da cana. De onze para doze de dezembro, o João Dejato dormiu no crusp, indo na manhã seguinte buscar material didático na Reitoria; depois, iria pegar o Prof. Chain, em Perdizes. Como o ano escolar estava praticamente findo, aproveitei a carona do João Dejato, chegando ao portão da minha casa, que ficava onde hoje é o prédio da Receita Federal, às cinco da tarde do dia 12 de dezembro de 1968.
                                     A maconha se disseminou, com ou sem repressão. E,se há um caso onde a repressão baixou,  não o foi sobre os os destruidores do regime democrático, porém contra o excesso de democracia  com que alguns alunos,proficientemente, obraram durante aquele  "tapa na onça", desfrutando sossegadas puxadas, ao som do tango-milonga Mi Marijuana Querida. "Un coup de dés jamais n'abolira le hazard". Evoé Baco. Deixem os meninos em paz. Inté.
                              

domingo, 6 de novembro de 2011

JACY DE CAMARGO SAYEG OU A PEDAGOGIA DA TERNURA

                                 JACY DE CAMARGO SAYEG,além de mãe da Beatriz e do Newton,  foi a primeira e eterna professora; fui por ela alfabetizado e iniciado nas contas elementares, rudimentos do que viria a ser história, geografia e civismo. 
                                       Ingressei no primeiro ano, do "1º Grupo Escolar de Penápolis", que fica até hoje na Av. Luiz Osório, na quadra adiante do vetusto Bar Tabu, em 1.952. Sete anos nas costas. E todo lampeiro lá fui mui supimpa para o primeiro dia de aula. 
                                            Naquele dia, depois da apresentação da "nossa" professora, a D. Jacy disse em voz mansa e pausada, que chamaria um por um dos alunos e, cada um, deveria, ao ouvir seu nome, dizer: presente. O júbilo(não há outra palavra melhor para expressar o meu estado de espírito naquele instante) que me invadiu o ser foi derramado. "Puxa", imaginei, logo de cara, antes de qualquer ensinamento, ao ouvir o meu nome eu diria presente, e já ganharia um brinde. Adorei a escola de todo meu contentamento. Durou nada a ilusão. Quando o último aluno respondeu o seu "presente", D. Jacy explicou que todos os dias o ritual se repetiria e que isso tinha o nome de chamada, que era para a gente ficar sabendo quem faltara à aula, e, assim, o presente declinado para a professora era, prosaicamente, eu estar lá na sala, mais nada. Me senti como se a bola de sorvete tivesse ido inteira ao chão. Mesmo pasmo, tratei de me conformar com a inevitável e inexorável constatação de que a palavra presente não passava de uma traidora, cruel, dissimulada, e olha, por que não, pérfida? Presente que se fizesse por merecer o nome só poderia ter a forma de um brinquedo, que lá vá uma guloseima qualquer, e não um chocho som que só servia para denunciar nossas presenças ante a professora. 
                                              Aquietei-me no meu canto, sem coragem para perscrutar junto a fonte máxima do saber, ali na minha frente, o porquê tão desavisado de uma coisa que toda a vida tinha sido o signo da alegria, transmutar-se numa outra oca, vazia, imprestável e vingativa. 
                                                        E esse foi o meu primeiro encontro entre o substantivo e e o verbo, e a descoberta inefável de que no princípio era o verbo estar presente; e o outro a quem tanto prezava só se materializou quando, ao terminarmos a cartilha, que não me recordo qual, mas não era a Caminho Suave, D. Jacy nos presenteou com uma festa, em sua casa, com tudo o que me conduziu às pazes com o MEU presente. Também, bolo, refrigerantes, doces, quitutes,como era o falar de então, e de esbaldar-se à tripa-forra, obtendo,definitivamente, a prova de eu estar certíssimo sobre presente ser presente, e sem esperar pelo natal que confirmaria minha tese. 
                                                E como presente final, cada um dos alunos ganhou de presente um livro. Muito mais do que uma cartilha. Saí da festa pleno do corpo e do espírito. Não imaginava que, a partir daquele dia, nunca mais deixaria de ter o presente que deu meu norte vida-a-fora: a leitura. 
                                                Então vocês já sabem porque a primeira professora sempre será a "Rosa Pristina". 
                                                D. Jacy mais do que professora foi um amor de pessoa, e, tenham a certeza de as crianças que alfabetizou tiveram o fruto de seu magistério no caráter e no carinho.Inté!

terça-feira, 13 de setembro de 2011

tô mais num tô

O problema é que crio o blog mas ele não aparece na web. O que será que minha jumentalidade insiste em desconhecer para que o blog saia mundo-a-fora?