Postei um vídeo que baixei do you tube, com o terceiro movimento da "Sinfonia dos Salmos" de Igor Stravinsky, um compositor do século vinte.
Os grandes compositores do século vinte nasceram, muitos deles, na segunda metade do século dezenove, continuando suas obras no século seguinte. Assim foi com Stravinsky que, de seus 88 anos, 71 os viveu no século 20.
Pode ser uma idiotia, em tempos de sertanejos universitários, secundaristas, rock metálico, reggae, e outros gêneros musicais, falar sobre um velhote do século passado.
Que foi o último compositor a criar "formas orgânicas de música" na expressão cunhada por Paulo Francis, que muito dela sabia.
Paulo Giovanini, grande pianista e insuperável professor, sempre ensinou que a música se divide em apenas duas e bem delimitadas definições: a que presta e a que não presta. O resto é perfumaria.
Clássica, erudita, popular, mpb, sertaneja, bossa nova, tango, samba, raiz, sertanejo universitário e o infinito de outras denominações tentam identificar os nichos onde se guardam as manifestações musicais e artísticas de uma comunidade privilegiada: a dos compositores.
Como em toda obra que se pretende arte, na música encontraremos talentos ao infinito; porém gênios, em escala quantitativa inversa à dos talentos.
Igor Stravinsky foi o mais polêmico compositor do século vinte. Outros o foram, a exemplo de Debussy, Ravel, Schoenberg, Mahler, Villa-Lobos, Respighi, secundados por uma infinidade de outros músicos.
Com Stravinsky, a produção musical toma formas inusitadas, nas melodias, nas harmonias, e, enfaticamente, nos ritmos.
Sua criação musical obedece três variáveis bem distintas: o período russo, de 1.882 a 1920, o francês ou neoclássico, de 1920 a 1939 e o norte-americano, de 1939 a 1971.
A Sinfonia dos Salmos data de 1930 sendo obra de encomenda pelo maestro Sergei Koussevitsky para a celebração do cinquentenário da Orquestra Sinfônica de Boston.
Sua dedicatória trata-se de respeitosa e humilde oferenda ao Criador: "Cette symphonie composée à la glorie de DIEU est dediée au Boston Symphony Orchestra à l´óccasion du cinquantenaire de son existence".
A música de Stravinsky, numa comparação bastante precária, assemelha-se à primeira leitura do "Grande Sertão: Veredas" do nosso grande João Guimarães Rosa. Ambas contém a novidade da criação "pura", da informação colhida em universos não ainda tocados pelo gênio da criação humana, por isso mesmo, cheias de espantos, choques, rupturas, contradições aparentes, ambiguidades e dilaceramentos demandando mais de uma leitura ou oitiva, para o marinheiro de primeira viagem.
"Minha" Sinfonia dos Salmos.
A primeira vez que ouvi falar da Sinfonia dos Salmos foi em casa de D. Maurícia de Almeida Aguiar, mãe da D. Mauricinha Aguiar, depois Soliani, à sua vez mãe do Eninho, Suzana, José Maurício, Patrícia, Amadeu e Fernando Soliani, igualmente filhos do Dr. Enio Soliani.
Minha irmã Maria Ivete -sim, ela mesma, a professora de matemática do Instituto e da Funepe - e eu estudávamos piano com D. Maurícia avó, e a Rádio Ministério da Educação e Cultura tinha uma programação de cunho mais "cultural", transmitindo ao vivo algumas apresentações da Orquestra Sinfônica Nacional, do Rio de Janeiro.
Isso foi no início dos anos sessenta, mas o que recordo é que haveria um tipo festival de música moderna e dentre elas haveria a apresentação da Sinfonia dos Salmos.
No seu dia, lá estávamos D. Maurícia, Maria Ivete e eu, à frente de um rádio de válvulas (o transistor só apareceu depois, muito depois), tentando acertar o dial na Rádio MEC. A transmissão era em ondas curtas, cheia de chiados e ruídos; o som vinha, ia embora, sumia, e depois voltava. Mas foi o suficiente para que tivessemos nós três a certeza da existência de um mundo novo. Inóspito. Selvagem. Intrigante.Desafiador.Desconcertante em seus rítmos arrevezados,em suas dissonancias bárbaras. Enfim, a espantosa descoberta de um novo som único, a ser explorado, abrindo que fosse uma picada pelo intrincadado de suas estruturas, mas que, em seu final continha o aceno claro de uma mensagem transcedental, emotiva, glorificante.
Devo acrescer que essa capilaridade do sentir a Sinfonia dos Salmos, como acima descrita, vim a tê-la somente muitos anos depois, quando encontrei na Banca do Cury (hoje a Tico e Teco), numa coleção de música clássica em fascículos, uma gravação soberba da Sinfônica de Moscou, sob a regência de Igor Markevitch, um dos grandes regentes dos anos 50/60.
Aí comecei a dar conta de o sertão ser em toda a parte, como insistia Riobaldo ao longo do Grande Sertão: Veredas, com toda a modernidade de sua estrutura, a Sinfonia dos Salmos imanava essências imbricadas no estilo de composição do período clássico. Simplificando: musica sacra moderna e clássica a um só tempo.
E sublime quando se toma o conhecimento dos três salmos que a inspiraram.
O terceiro movimento, , surge com a simplicidade grandiosa que somente o gênio é capaz de dominar. É musica "orgânica" que penetra nosso espírito, enleva nossa alma, testemunha a perenidade da arte para todo o sempre.
Em próximo passo, direi sobre os salmos escolhidos pelo autor para compor a sinfonia.
Quem insistir, digo e repito, conseguirá percorrer até o fundo, as veredas e os sortilégios desse mundo único e mágico da música.
Findo - ufa - com um aforismo clássico do nosso modernista Oswald de Andrade: "Um dia a massa há de comer o biscoito fino que eu fabrico". Assim será com toda a obra de arte, de que o mundo anda muito precisado. Inté.
Com Stravinsky, a produção musical toma formas inusitadas, nas melodias, nas harmonias, e, enfaticamente, nos ritmos.
Sua criação musical obedece três variáveis bem distintas: o período russo, de 1.882 a 1920, o francês ou neoclássico, de 1920 a 1939 e o norte-americano, de 1939 a 1971.
A Sinfonia dos Salmos data de 1930 sendo obra de encomenda pelo maestro Sergei Koussevitsky para a celebração do cinquentenário da Orquestra Sinfônica de Boston.
Sua dedicatória trata-se de respeitosa e humilde oferenda ao Criador: "Cette symphonie composée à la glorie de DIEU est dediée au Boston Symphony Orchestra à l´óccasion du cinquantenaire de son existence".
A música de Stravinsky, numa comparação bastante precária, assemelha-se à primeira leitura do "Grande Sertão: Veredas" do nosso grande João Guimarães Rosa. Ambas contém a novidade da criação "pura", da informação colhida em universos não ainda tocados pelo gênio da criação humana, por isso mesmo, cheias de espantos, choques, rupturas, contradições aparentes, ambiguidades e dilaceramentos demandando mais de uma leitura ou oitiva, para o marinheiro de primeira viagem.
"Minha" Sinfonia dos Salmos.
A primeira vez que ouvi falar da Sinfonia dos Salmos foi em casa de D. Maurícia de Almeida Aguiar, mãe da D. Mauricinha Aguiar, depois Soliani, à sua vez mãe do Eninho, Suzana, José Maurício, Patrícia, Amadeu e Fernando Soliani, igualmente filhos do Dr. Enio Soliani.
Minha irmã Maria Ivete -sim, ela mesma, a professora de matemática do Instituto e da Funepe - e eu estudávamos piano com D. Maurícia avó, e a Rádio Ministério da Educação e Cultura tinha uma programação de cunho mais "cultural", transmitindo ao vivo algumas apresentações da Orquestra Sinfônica Nacional, do Rio de Janeiro.
Isso foi no início dos anos sessenta, mas o que recordo é que haveria um tipo festival de música moderna e dentre elas haveria a apresentação da Sinfonia dos Salmos.
No seu dia, lá estávamos D. Maurícia, Maria Ivete e eu, à frente de um rádio de válvulas (o transistor só apareceu depois, muito depois), tentando acertar o dial na Rádio MEC. A transmissão era em ondas curtas, cheia de chiados e ruídos; o som vinha, ia embora, sumia, e depois voltava. Mas foi o suficiente para que tivessemos nós três a certeza da existência de um mundo novo. Inóspito. Selvagem. Intrigante.Desafiador.Desconcertante em seus rítmos arrevezados,em suas dissonancias bárbaras. Enfim, a espantosa descoberta de um novo som único, a ser explorado, abrindo que fosse uma picada pelo intrincadado de suas estruturas, mas que, em seu final continha o aceno claro de uma mensagem transcedental, emotiva, glorificante.
Devo acrescer que essa capilaridade do sentir a Sinfonia dos Salmos, como acima descrita, vim a tê-la somente muitos anos depois, quando encontrei na Banca do Cury (hoje a Tico e Teco), numa coleção de música clássica em fascículos, uma gravação soberba da Sinfônica de Moscou, sob a regência de Igor Markevitch, um dos grandes regentes dos anos 50/60.
Aí comecei a dar conta de o sertão ser em toda a parte, como insistia Riobaldo ao longo do Grande Sertão: Veredas, com toda a modernidade de sua estrutura, a Sinfonia dos Salmos imanava essências imbricadas no estilo de composição do período clássico. Simplificando: musica sacra moderna e clássica a um só tempo.
E sublime quando se toma o conhecimento dos três salmos que a inspiraram.
O terceiro movimento, , surge com a simplicidade grandiosa que somente o gênio é capaz de dominar. É musica "orgânica" que penetra nosso espírito, enleva nossa alma, testemunha a perenidade da arte para todo o sempre.
Em próximo passo, direi sobre os salmos escolhidos pelo autor para compor a sinfonia.
Quem insistir, digo e repito, conseguirá percorrer até o fundo, as veredas e os sortilégios desse mundo único e mágico da música.
Findo - ufa - com um aforismo clássico do nosso modernista Oswald de Andrade: "Um dia a massa há de comer o biscoito fino que eu fabrico". Assim será com toda a obra de arte, de que o mundo anda muito precisado. Inté.